17  Planejamento da Paisagem

17.1 Planejar para quê?

Até este ponto do livro, aprendemos a descrever a paisagem (sua estrutura, composição e configuração), a medi-la (com métricas, sensoriamento remoto e SIG), a detectar suas mudanças ao longo do tempo e a entender os processos que a moldam (hidrologia, biodiversidade, dinâmica de uso do solo, clima). Agora, a pergunta muda de direção. Em vez de “como é a paisagem?” e “por que ela muda?”, passamos a perguntar “como deveria ser a paisagem?” e “o que podemos fazer para que ela se aproxime desse ideal?”. Essa mudança de uma perspectiva descritiva e analítica para uma perspectiva prescritiva e propositiva é a essência do planejamento da paisagem (landscape planning).

Para entender por que o planejamento é necessário, basta observar que, sem ele, as decisões de uso do solo são tomadas de forma fragmentada. Cada proprietário rural decide individualmente o que plantar, o que preservar e o que desmatar, guiado por critérios econômicos de curto prazo. Cada município define seu zoneamento urbano com atenção limitada ao que os municípios vizinhos fazem. Cada empreendimento é licenciado com base em seu impacto local, sem considerar o efeito cumulativo de dezenas de empreendimentos na mesma bacia. O resultado dessas decisões atomizadas é uma paisagem que não serve bem a ninguém. Os ecossistemas se fragmentam, a água se degrada, a produtividade agrícola declina por perda de serviços ecossistêmicos, os custos de infraestrutura urbana aumentam e os riscos de desastres naturais se amplificam.

O planejamento da paisagem propõe organizar essas decisões de forma coordenada, na escala espacial em que os processos ecológicos e hidrológicos realmente operam (bacias hidrográficas, corredores ecológicos, regiões metropolitanas), com horizonte temporal de médio a longo prazo (décadas, não anos) e com consideração explícita dos múltiplos objetivos e interesses envolvidos (produção, conservação, habitação, infraestrutura, cultura, lazer).

17.2 Princípios do planejamento da paisagem

O planejamento da paisagem é guiado por princípios derivados da ecologia da paisagem, da hidrologia, da ciência da conservação e do planejamento territorial. Os mais fundamentais, sintetizados por Forman (1995), podem ser organizados num arcabouço lógico conforme a Figura 17.1.

A Princípios do Planejamento da Paisagem B Manter manchas grandes de vegetação nativa A->B C Manter conectividade entre manchas (corredores) A->C D Proteger zonas ripárias e áreas sensíveis A->D E Manter heterogeneidade na matriz produtiva A->E F Concentrar usos intensivos em áreas de aptidão A->F G Paisagem funcional e resiliente B->G C->G D->G E->G F->G
Figura 17.1: Cinco princípios fundamentais do planejamento da paisagem e sua convergência para uma paisagem funcional e resiliente.

A Figura 17.1 apresenta princípios que, embora enunciados de forma aparentemente simples, possuem cada um uma fundamentação ecológica e hidrológica substancial. O princípio de manter manchas grandes decorre da relação espécie-área e do efeito de borda, pois manchas grandes possuem maior área nuclear (protegida dos efeitos de borda), sustentam populações maiores e mais viáveis, e abrigam espécies sensíveis que não persistem em fragmentos pequenos. O princípio de manter conectividade decorre da teoria de metapopulações e da necessidade de fluxo gênico entre populações, permitindo recolonização após extinções locais e dispersão em resposta a mudanças climáticas. O princípio de proteger zonas ripárias integra a função ecológica (corredor de habitat, refúgio de fauna) com a função hidrológica (filtragem de sedimentos e nutrientes, estabilização de margens, regulação térmica dos rios). O princípio de manter heterogeneidade na matriz reconhece que a matriz não precisa ser hostil, e que mosaicos diversificados (silvipastoril, agrofloresta, cultivos diversificados) sustentam mais biodiversidade e serviços do que monocultura homogênea. O princípio de concentrar usos intensivos em áreas de aptidão minimiza o desperdício de terras marginais e reduz os impactos ambientais ao direcionar a produção para onde o solo, o relevo e o clima oferecem melhores condições.

17.3 Instrumentos de planejamento no Brasil

O Brasil possui um arcabouço legal e institucional que, embora fragmentado e com lacunas de implementação, oferece instrumentos para o planejamento da paisagem em múltiplas escalas. A compreensão desses instrumentos é essencial para qualquer profissional que trabalhe com gestão territorial.

O Código Florestal (Lei 12.651/2012) é o instrumento legal mais diretamente relacionado à estrutura da paisagem rural, pois define as Áreas de Preservação Permanente (APPs, protegendo margens de rios, nascentes, topos de morros e encostas íngremes) e a Reserva Legal (RL, proporção mínima de vegetação nativa que cada propriedade deve manter, variando de 80% na Amazônia a 20% no restante do país). O Cadastro Ambiental Rural (CAR) georreferenceia essas áreas no território, criando pela primeira vez uma base espacial abrangente da situação ambiental das propriedades rurais brasileiras. A Política Nacional de Meio Ambiente (Lei 6.938/1981) estabelece o licenciamento ambiental e a avaliação de impacto como instrumentos de controle, enquanto o Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE) propõe a divisão do território em zonas com vocações e restrições diferenciadas.

Na escala urbana, o Estatuto da Cidade (Lei 10.257/2001) e os Planos Diretores municipais definem o zoneamento urbano, as taxas de ocupação e de permeabilidade, e as áreas de proteção ambiental urbana. Na escala de bacia hidrográfica, a Política Nacional de Recursos Hídricos (Lei 9.433/1997) institui os Comitês de Bacia como instâncias de gestão participativa e os Planos de Recursos Hídricos como instrumentos de planejamento.

Complementarmente, a classificação ecodinâmica de Tricart (1977) oferece um critério geomorfológico para o zoneamento: meios estáveis (pedogênese predominante, aptos a usos mais intensivos), meios intergrades (equilíbrio frágil entre morfogênese e pedogênese, exigindo manejo cuidadoso) e meios instáveis (morfogênese predominante, onde a cobertura vegetal ou intervenções de bioengenharia são indispensáveis). Essa classificação é particularmente útil para orientar a alocação de reservas legais e APPs em áreas onde a legislação exige proteção, mas não fornece critérios técnicos para definir prioridades espaciais.

O desafio fundamental é que esses instrumentos foram concebidos em escalas e setores diferentes (ambiental, agrícola, urbano, hídrico) e raramente são articulados entre si na escala da paisagem. O Código Florestal opera na escala da propriedade individual, o que pode gerar configurações espaciais de reserva legal subótimas do ponto de vista ecológico (cada proprietário reserva 20%, mas os 20% de cada um ficam isolados nos cantos menos produtivos da propriedade, sem conectividade entre si). O ZEE opera em escala estadual ou regional, frequentemente sem resolução suficiente para orientar decisões no nível municipal. Os planos diretores urbanos raramente consideram a paisagem periurbana e rural como parte funcional da cidade. A integração desses instrumentos em uma visão de paisagem coerente é um dos maiores desafios do planejamento territorial brasileiro.

17.4 Do diagnóstico à intervenção

O planejamento da paisagem segue, tipicamente, um fluxo que parte do diagnóstico e chega à proposta de intervenção. A Tabela 17.1 sintetiza as etapas principais.

Tabela 17.1: Etapas do fluxo de planejamento da paisagem, com objetivos e ferramentas associadas.
Etapa Objetivo Ferramentas principais
Diagnóstico da paisagem Mapear a estrutura atual (composição, configuração, conectividade) Sensoriamento remoto, classificação de uso, métricas (FRAGSTATS)
Análise de processos Avaliar hidrologia, biodiversidade, serviços ecossistêmicos Modelagem hidrológica, inventários biológicos, InVEST
Identificação de problemas Localizar áreas críticas (fragmentação, erosão, risco, déficit hídrico) Análise espacial, sobreposição de camadas, mapas de aptidão
Cenários alternativos Simular configurações futuras sob diferentes decisões de uso Modelos de mudança de uso, Dinamica EGO, análise multicritério
Proposta de intervenção Definir ações (restauração, corredores, zoneamento, PSA) Priorização espacial (Zonation, Marxan), consulta participativa
Monitoramento Acompanhar a implementação e avaliar resultados Detecção de mudanças, indicadores de efetividade

A Tabela 17.1 evidencia que o planejamento da paisagem é essencialmente uma aplicação integrada dos métodos e conceitos desenvolvidos nos capítulos anteriores. O diagnóstico utiliza sensoriamento remoto (Capítulo 6) e métricas (Capítulo 9). A análise de processos aplica os conceitos de hidrologia (Capítulo 13), biodiversidade (Capítulo 15) e serviços ecossistêmicos (Capítulo 14). A identificação de problemas mobiliza análise espacial com SIG (Capítulo 7). A simulação de cenários usa modelos de mudança (Capítulo 13 e Capítulo 20). A proposta de intervenção se materializa em restauração (Capítulo 18) e corredores (Capítulo 19). O planejamento da paisagem é, portanto, a síntese aplicada de todo o arcabouço conceitual e metodológico da Ciência da Paisagem.

17.5 Planejamento participativo e conflitos

A paisagem não é um sistema puramente biofísico. É também um espaço de relações sociais, econômicas e políticas. As decisões sobre o que fazer com a paisagem afetam diferentes atores de formas diferentes (agricultores, pecuaristas, comunidades tradicionais, empresas, moradores urbanos, gerações futuras), e esses atores frequentemente possuem interesses conflitantes. O pecuarista quer maximizar sua área de pastagem, o ambientalista quer maximizar a cobertura florestal, o urbanizador quer expandir a área construída, e o agricola quer terras planas e férteis para cultivo. Todos têm razões legítimas, e a paisagem não pode satisfazer todos simultaneamente.

O planejamento participativo reconhece esses conflitos e propõe que as decisões sobre a paisagem sejam tomadas com a participação dos atores envolvidos, de forma transparente e informada. A Ciência da Paisagem contribui para esse processo ao fornecer diagnósticos técnicos que quantificam os trade-offs entre diferentes opções de uso (se o desmatamento avançar, quanto de serviço hídrico será perdido? Se a Reserva Legal for alocada coletivamente em corredores, quanto de conectividade será ganho em relação à alocação individual?) e ao gerar cenários que permitem visualizar as consequências de longo prazo de decisões tomadas hoje. A ciência não decide, mas informa a decisão, reduzindo a incerteza e explicitando as consequências de cada alternativa.

DicaPara aprofundar

O conceito de “land sparing” vs. “land sharing” é um debate central no planejamento da paisagem. O land sparing propõe separar rigorosamente as áreas de produção intensiva das áreas de conservação, maximizando a produtividade nas primeiras para liberar as segundas. O land sharing propõe integrar produção e conservação nos mesmos espaços, por meio de práticas como agrofloresta e agricultura de baixo impacto. Na prática, a maioria das paisagens necessita de ambas as estratégias, calibradas conforme a aptidão do solo, a biodiversidade local, a economia regional e as preferências sociais. A escolha entre essas estratégias é discutida no contexto de restauração ecológica no Capítulo 18.