Análise da Paisagem

Percepção, Valoração e Paisagem Cultural
Curso de Geografia

Luiz Diego Vidal Santos

Visão Geral da Aula

Tópicos

  • 1 De quem é a paisagem? Percepção e subjetividade
  • 2 Yi-Fu Tuan e a Topofilia (1974)
  • 3 Augustin Berque: paisagem-marca e paisagem-matriz
  • 4 Denis Cosgrove: paisagem e poder simbólico
  • 5 Paisagem cultural na prática: IPHAN, UNESCO e Convenção Europeia
  • 6 Exercício: leitura perceptiva da paisagem local

Objetivo da Aula

Compreender a dimensão socioespacial e perceptiva da paisagem, articulando as contribuições de Tuan, Berque e Cosgrove com as abordagens quantitativas da ecologia da paisagem.

1 - PERCEPÇÃO E SUBJETIVIDADE

Paisagem: objeto ou experiência?

Ponto de vista elevado sobre a paisagem, percepção e contemplação

A paisagem que analisamos com métricas, SIG e sensoriamento remoto é a paisagem objetivada, um mosaico de manchas, corredores e matriz quantificável por índices.

Mas a paisagem também é experiência vivida:

  • O agricultor que lê o céu e sabe onde plantar
  • O quilombola que identifica marcos territoriais invisíveis ao mapa
  • O turista que busca a “paisagem bonita” sem saber defini-la

Percepção importa

A análise da paisagem que ignora a percepção perde metade do fenômeno. Essa tensão entre objetividade e subjetividade atravessa toda a história da Geografia da Paisagem.

flowchart TB
    P["PAISAGEM"] --> O["Leitura Objetiva<br>Métricas, mapas, índices"]
    P --> S["Leitura Subjetiva<br>Percepção, valores, afeto"]
    O --> I["Análise Integrada<br>Diagnóstico + Valoração"]
    S --> I
    style P fill:#2E7D32,color:#fff,stroke:#1B5E20,stroke-width:2px
    style O fill:#BBDEFB,stroke:#1565C0
    style S fill:#FFE0B2,stroke:#E65100
    style I fill:#C8E6C9,stroke:#2E7D32

Duas leituras da mesma paisagem.

2 - YI-FU TUAN: TOPOFILIA

O conceito de Topofilia

Yi-Fu Tuan (1974) cunhou o termo topofilia para descrever o elo afetivo entre pessoa e lugar:

“Topophilia is the affective bond between people and place or setting.”

Tuan (1974, p. 4)

Tuan argumenta que a percepção ambiental é mediada por:

  • Sentidos, visão, olfato, tato, audição
  • Cultura, valores, crenças, tradições
  • Experiência, história pessoal, memória
  • Atitude, postura para com o ambiente (medo, admiração, indiferença)

A mesma paisagem pode gerar topofilia (vínculo positivo) ou topofobia (aversão) conforme o sujeito.

Referência

TUAN, Y.-F. (1974). Topophilia: A Study of Environmental Perception, Attitudes, and Values. Englewood Cliffs: Prentice-Hall.

Edição brasileira: Topofilia. São Paulo: Difel, 1980.

Roça de Toco / Coivara

Sistemas Agrícolas Tradicionais do Brasil. Esses sistemas são paisagens culturais vivas que expressam a topofilia de comunidades com seus territórios: saberes acumulados, vínculos afetivos e adaptação ao meio.

Roça de toco (coivara) na Amazônia brasileira. Fonte: Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0 IGO.

Agricultura itinerante

Sistema milenar indígena de corte e queima, seguido de plantio por 2-3 safras e pousio de 10-20 anos para regeneração da fertilidade.

Praticado por povos tradicionais da Amazônia, Mata Atlântica e Cerrado. A paisagem resultante é um mosaico de roças ativas, capoeiras jovens e floresta madura. Satélites classificam como “degradação”, mas comunidades reconhecem como ciclo agrícola sustentável.

“A terra descansa para depois dar de novo.”

Vídeo: Roça de Toco / Coivara

Agricultura itinerante de corte e queima - sistema milenar dos povos tradicionais.

Cabruca

Cacaueiro em produção, sistema típico da cabruca baiana. Fonte: Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

Cacau sob sombra da Mata Atlântica

No sul da Bahia (Ilhéus, Itabuna, Una), o cacau é cultivado sob o dossel da Mata Atlântica, onde as árvores maiores são mantidas e o sub-bosque é substituído por cacaueiros.

Um dos poucos sistemas agrícolas que conserva a estrutura florestal enquanto produz.

  • Paisagem-marca (Berque): a floresta transformada pelo agricultor
  • Paisagem-matriz: a floresta que condiciona o microclima ideal para o cacau

Para a comunidade, os cacaueiros antigos são “herança dos avós”, sinônimo de memória e identidade territorial.

Vídeo: Sistema Cabruca

O sistema cabruca no sul da Bahia: cacau cultivado sob a sombra da Mata Atlântica.

Agricultura de Sequeiro na Caatinga

Agricultura familiar na Caatinga, Nordeste do Brasil. Fonte: Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

Convivência com a seca

No Semiárido nordestino, comunidades praticam agricultura de sequeiro adaptada ao regime pluviométrico irregular: mandioca, feijão, milho e palma forrageira.

O agricultor “lê” sinais da paisagem (floração da catingueira, comportamento das abelhas) para definir o momento de plantar, um inventário perceptivo que nenhum SIG registra.

  • Baixios (terras baixas mais úmidas) → topofilia forte
  • Encostas pedregosas → topofobia

A paisagem reflete saberes seculares de convivência com a seca.

Fundo de Pasto

Pastoreio extensivo comunitário na Caatinga baiana. Fonte: Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

Pastoreio comunitário na Caatinga

No norte da Bahia, comunidades tradicionais criam caprinos e ovinos em áreas coletivas de Caatinga não cercadas, os chamados “fundos de pasto”.

Os animais circulam livremente pela vegetação nativa. A paisagem é gerida coletivamente por acordos comunitários seculares.

“A terra é de todos, o gado é que é de cada um.”

Topofilia coletiva: o território não “pertence” a indivíduos, mas à comunidade inteira.

Vídeo: Fundo de Pasto

Comunidades tradicionais de Fundo de Pasto na Caatinga baiana.

Palma Forrageira

Palma forrageira em floração, cultivo tradicional do Semiárido. Fonte: Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

Cultura adaptada ao Semiárido

A palma forrageira (Opuntia e Nopalea) é cultivada em todo o Semiárido como alimento para o gado e reserva hídrica (90% de água nos cladódios).

Paisagem icônica do Agreste e Sertão, os “palmais” são marcos visuais de identidade regional. O manejo tradicional envolve poda seletiva e consórcio com outras culturas.

“Se a palma aguenta, a gente também aguenta”, expressão concreta de topofilia em ambiente hostil.

Agrofloresta Quilombola

Sistema agroflorestal em comunidade quilombola. Fonte: Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

Saberes africanos e indígenas integrados

Comunidades quilombolas desenvolveram sistemas agroflorestais complexos: frutíferas, medicinais, madeireiras e culturas anuais em arranjos multiestrato.

A paisagem quilombola é simultaneamente roça, farmácia e floresta, expressão material de identidade, resistência e memória territorial.

  • Paisagem-marca (Berque): registro de diáspora e resistência
  • Paisagem-matriz: a floresta manejada que sustenta a comunidade

Faxinal

Faxinal de Sete Saltos, Ponta Grossa – PR. Sistema agrossilvopastoril com araucárias.

Sistema agrossilvopastoril do Paraná

Os faxinais do sul do Brasil (PR, SC) são sistemas de uso comum da terra: o “criadouro comunitário” (floresta com araucária) abriga animais soltos sob o dossel, enquanto as “terras de plantar” ficam nas bordas, cercadas individualmente.

Paisagem marcada pela Floresta Ombrófila Mista manejada há gerações, com pinhão, erva-mate e criação animal integrados. Exemplo raro de commons no Brasil meridional.

A topofilia se manifesta no “pinheiro do avô”, árvores centenárias que marcam limites e histórias familiares.

Vídeo: O Sistema Faxinal no Paraná

O sistema faxinal no Paraná, uso comum da terra sob a Floresta com Araucária.

Quebradeiras de Coco Babaçu

Quebradeira de coco babaçu em atividade. Fonte: Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

Extrativismo tradicional

No Maranhão, Tocantins, Piauí e Pará, cerca de 300 mil mulheres, as quebradeiras de coco babaçu, praticam o extrativismo da palmeira babaçu (Attalea speciosa), quebrando os cocos para extrair amêndoas (óleo, farinha, carvão).

Os babaçuais formam uma paisagem de transição entre Cerrado e Amazônia. O acesso livre às palmeiras é garantido por “leis do babaçu livre” em vários municípios.

Topofilia expressa no gesto cotidiano de quebrar o coco e no canto de trabalho que ecoa nos palmeirais.

Implicações para a Análise da Paisagem

Como a topofilia de Tuan amplia o diagnóstico da paisagem.
Dimensão de Tuan Implicação prática
Percepção sensorial Inventários de campo devem registrar sons, cheiros, texturas, não apenas coordenadas
Valores culturais Comunidades atribuem significados a feições que o mapa não revela (sítios sagrados, marcos)
Memória e identidade Paisagens históricas têm valor mesmo quando “degradadas” por critérios ecológicos
Topofobia Áreas de risco (encostas instáveis, áreas inundáveis) geram rejeição que condiciona o uso

Para a prática

No trabalho de campo, pergunte aos moradores: “O que você mais gosta nesta paisagem? O que mais teme?”, essas respostas revelam valores que mapas e métricas não captam.

3 - AUGUSTIN BERQUE: PAISAGEM-MARCA E PAISAGEM-MATRIZ

A contribuição de Berque

Augustin Berque (1984) propôs uma dupla leitura da paisagem:

Paisagem-marca (O resultado) (paysage-empreinte)

  • A paisagem como registro da ação humana sobre o território: cicatrizes de desmatamento, terraços agrícolas, padrões urbanos
  • É o ambiente funcionando como uma “tela” onde a sociedade deixa suas impressões digitais

Paisagem-matriz (O molde) (paysage-matrice)

  • A paisagem como condicionante da ação futura: o relevo que impõe limites, o clima que define possibilidades, a forma urbana que orienta comportamentos
  • Funciona como um molde (uma matriz) que condiciona, inspira e influencia a cultura, a identidade, os hábitos e as futuras ações da sociedade

Dupla natureza

A paisagem é ao mesmo tempo produto e produtora de relações sociais. Na perspectiva ecológica, funciona como suporte biofísico (matriz), enquanto na geografia cultural constitui expressão social (marca).

flowchart LR
    S["Sociedade<br>Cultura, Economia"] -->|"marca<br>(transforma)"| P["PAISAGEM"]
    P -->|"matriz<br>(condiciona)"| S
    style S fill:#FFE0B2,stroke:#E65100
    style P fill:#2E7D32,color:#fff,stroke:#1B5E20,stroke-width:2px

Paisagem-marca e paisagem-matriz (Berque, 1984).

Referência

BERQUE, A. (1984). Paysage-empreinte, paysage-matrice. L’Espace Géographique, 13(1), 33-34.

4 - DENIS COSGROVE: PAISAGEM E PODER

Paisagem como ideologia

Denis Cosgrove (1984) argumentou que a paisagem é uma forma de ver (way of seeing) historicamente construída:

  • A paisagem foi inventada como conceito estético pela aristocracia mercantil do Renascimento italiano (séc. XV-XVI)
  • Ver a paisagem pressupõe um observador externo com posição privilegiada, o olhar do proprietário, do viajante, do cartógrafo
  • Mapas e representações paisagísticas são instrumentos de poder: quem mapeia, controla

“Landscape is a way of seeing that has its own history, but a history that can be understood only as part of a wider history of economy and society.”

Cosgrove (1984, p. 1)

Reflexão para a disciplina

Quando fazemos um mapa de uso do solo, escolhemos o que representar e o que omitir. Essa escolha não é neutra:

  • Mapeamos “vegetação nativa” e “pastagem”, categorias da ecologia
  • Não mapeamos “terra do avô” ou “caminho da festa”, categorias da comunidade

A análise da paisagem ganha robustez quando reconhece seus limites representacionais.

Paisagem Cultural: marcos institucionais

Paisagem cultural, patrimônio e identidade

Marcos institucionais da paisagem cultural.
Instrumento Ano Definição de paisagem cultural
IPHAN (Chancela da Paisagem Cultural) 2009 “Porção peculiar do território nacional, representativa do processo de interação do homem com o meio natural”
UNESCO (Patrimônio Mundial) 1992 “Combined works of nature and humankind that express a long and intimate relationship between peoples and their natural environment”
Convenção Europeia da Paisagem 2000 “An area, as perceived by people, whose character is the result of the action and interaction of natural and/or human factors”

Note

No Brasil, a primeira paisagem cultural chancelada pelo IPHAN foi o conjunto de feiras livres do Vale do Jiquiriçá (BA), paisagem cultural baiana!

5 - EXERCÍCIO PRÁTICO

Leitura Perceptiva da Paisagem Local

Roteiro

  1. Escolha um ponto de observação na sua área de estudo (mirante, topo de elevação, margem de rio)
  2. Registre (foto panorâmica + anotações):
    • O que a visão alcança? Quais feições dominam?
    • Que sons, cheiros e texturas caracterizam o lugar?
    • Que sinais de ação humana são visíveis? (marca)
    • Que condicionantes naturais são evidentes? (matriz)
  3. Entreviste ao menos 2 moradores:
    • O que mais gosta nessa paisagem?
    • O que mudou nos últimos 20 anos?
    • O que gostaria que fosse diferente?

Produto esperado

Componentes da leitura perceptiva.
Componente Método
Descrição visual Fotopanorama + croqui anotado
Percepção local Trechos de entrevista organizados por tema
Valores Tabela: topofilia × topofobia
Marcas Lista de feições antrópicas identificáveis
Matrizes Lista de condicionantes naturais
Síntese Parágrafo integrando leitura objetiva e subjetiva

6 - SÍNTESE

Conexão com a Disciplina

Autor / Conceito Aulas conectadas
Tuan, Topofilia → Trabalho de Campo (Aula 11.1), Diagnóstico Integrado (Aula 9.4)
Berque, Marca/Matriz → Geossistema (Aula 2.3), Planejamento Territorial (Aula 10.1)
Cosgrove, Paisagem e poder → Matriz de Evidências (Aula 6.1), Zoneamentos (Aula 10.3)
Paisagem cultural (IPHAN) → Legislação Ambiental e Paisagística

Leituras Recomendadas

  • TUAN, Y.-F. (1974). Topophilia. Englewood Cliffs: Prentice-Hall.
  • BERQUE, A. (1984). Paysage-empreinte, paysage-matrice. L’Espace Géographique, 13(1), 33-34.
  • COSGROVE, D. (1984). Social Formation and Symbolic Landscape. London: Croom Helm.
  • IPHAN. (2009). Portaria nº 127: Chancela da Paisagem Cultural Brasileira.
  • Convenção Europeia da Paisagem. (2000). Florença: Conselho da Europa.